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Mostrando postagens com o rótulo Conto

Mais cristã impossível

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  Não aguento mais o cheiro desse pronto-socorro. Suporto menos ainda  esse governo filho-da-puta que vive inventando leis para adiar a minha aposentadoria. Sei que os pacientes não merecem a minha revolta e o meu cansaço. Danem- se eles também! Nunca fui muito melhor que isso. A insegurança e a falta de experiência do início da carreira me davam medo, só isso. Precisei simular uma empatia que nunca tive para não perder o emprego no estágio probatório. Burra eu nunca fui.           Ser uma boa aluna e passar no vestibular de medicina, nada tem a ver com a indiferença que tenho pelo sofrimento dos outros. Em nenhum momento da minha formação me exigiram compaixão. Provavelmente pensaram que ela seria óbvia numa mulher médica, mas não é. A vulnerabilidade que a doença gera nas pessoas me causa nojo e os meus pacientes nunca puderam contar comigo para diminuir qualquer rastro dessa fragilidade infantil. Não alimento esperanças vazias e irreais. A ciên...

Formigas e escolhas

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  Vitória mal conseguia se lembrar do que aconteceu naquela tarde de domingo. Lentamente, algumas imagens foram se formando: a cartela vazia de comprimidos, o copo de leite e o pó branco macerado no fundo do pilão de ardósia que o professor de sociologia lhe deu no passeio que fizeram pela feirinha de artesanato do MASP, no dia mais feliz da sua vida.           Ela nunca imaginou que andaria de mãos dadas a um homem tão inteligente. Pena ele não ter conseguido abandonar a esposa e o filho recém-nascido. Outras duas alunas perderiam o semestre naquele ano, mas Vitória decidiu perder mais.          "Graças a Deus você acordou, minha filha", a voz longínqua de Dona Adélia se somava a orquestra dissonante dos alarmes da UTI do Hospital Nove de Julho, confirmando para jovem que ela havia falhado. O trauma do tubo ainda lhe queimava a garganta e hematomas tatuavam seus braços, enquanto a sonda de borracha era puxada de sua uretra por...

Bravo!

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   Artistas no palco para apresentação da nova tragédia humana Plateia em silêncio Sobe o pano Primeiro ato: Um enfraquecido governo de extrema direita, distraído pela disputa contra uma Suprema Corte inflada pela nova ordem woke, não ouve as ameaças dos ultra-terroristas vizinhos. Segundo ato: Na fronteira do país, jovens veganos se divertem em uma rave para celebrar o fim das férias e o início de um mundo mais empático e inclusivo, ao lado do muro desnecessário. Terceiro ato: Muro, moças e rapazes, sis e trans, bebês, soldados e ilusão, tudo voa pelos ares. Desce o pano Plateia em silêncio

Cinofobia

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         O renomado ortopedista de Oeiras saiu do carro e caminhava para casa distraído, quando Kid, o filhote de chiuaua da vizinha, partiu latindo ferozmente em sua direção.        Paralisado, o médico, conhecido também pelo pavor que sentia de cães, exigiu que a dona detivesse o temível animal.       – Calma, Dr. Portela. Ele é capado.       – Filha, estou com medo é que ele morda.

Reminiscências

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Exausto do churrasco no condomínio afastado, o pai deu as chaves para o filho mais novo e se acomodou no banco de trás.  A vontade era de se deitar junto com o sol, mas a lei agora p roibia.       Afivelou o cinto e abriu a janela deixando o vento lhe massagear o rosto e os cabelos raros. Fechou os olhos quando avistou os arcos da nova ponte.  Luzes e sombras passavam por suas retinas, como não faziam há muito tempo.        Cada vez mais distantes, o spotify e a conversa indecifrável da esposa com o filho motorista embalaram o transe, abrindo um portal de reminiscências: outro carro, outras vozes longínquas vindas do banco da frente.  Tosse e rádio no fim da tarde de um domingo há cinco décadas dali.       Voltando da chácara, a Brasília bege pedia marcha na subida da Granja do Torto. Após a parada para o caldo de cana   no cone de papel do acostamento, um cigarro passou a perfumar o vento que entrava pela janela. ...

O pai do noivo

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– Me disseram que o seu vestido tá ficando lindo. – Tá, mas você só vai ver no dia do casamento. – E a igreja, as flores, a decoração do salão... tá tudo como você sonhou? – Sim, tudo perfeito, Arnaldo. – Por que esse rostinho triste então, meu anjo? Você sabe que eu não gosto de te ver assim. – Já te disse que não faço questão de nada disso. Deixo tudo pra trás e fujo com você hoje mesmo pra qualquer lugar. – Lili, eu já te expliquei mil vezes. Essa é a única forma de ficarmos juntos por enquanto. Os seus pais vão voltar para o interior. Lembra? – Eu sei, mas essa situação é muito estranha. Morarmos na mesma casa com a sua família.  – Olhe o lado bom. Nos veremos todos os dias, e em pouco tempo vamos ser só nós dois num lugar só nosso. Prometo. – Eu só aceitei essa loucura e fiz o que fiz, porque confio em você, mas... – Então por que essa angústia agora? Tá dando tudo tão certo. – É que as vezes fico com pena dele... – Pena!? O menino está completamente apaixonado . Desd...

Perdão Doralice

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                                                                            Por Salomão Chaib                 Perdão, Doralice. Na verdade, eu estava cego. Você tentou suicidar-se bebendo soda cáustica. Era o que tinha à mão, na modesta cozinha onde sua mãe passava os dias. Fiquei imaginando que problemas tão graves a levaram, aos dezesseis anos, a desistir da vida. Que choques emocionais, conflitos de sentimentos, teriam ferido tão profundamente o cerne de sua existência, ainda tão tênue e indefinida?                Por que você não respondia aos insistentes apelos de sua mãe? Por quê? Quando tivesse passado o perigo, iria perceber que o problema que a levara àquele ato não era tã...

A barra mais pesada que tiveram

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     Seis e trinta da manhã, o despertador avisou pela terceira vez. Os postes do início da W3 Sul ainda estavam acesos e os primeiros ônibus começavam  a chegar ao centro da capital. Faltava menos de quarenta minuto para o início de mais um plantão de vinte e quatro horas. Melhor correr.         Empurrou o marido da cama, tomou um banho rápido, deu beijinhos nos gêmeos e desceu as escadas da sobreloja mastigando um pão de queijo dormido. Arrumou os cabelos enquanto caminhava para o Hospital de Base. O plantão de domingo nunca era tranquilo. Os exageros do fim de semana lotavam as macas do pronto socorro.         Mônica estava no terceiro ano de residência. Conciliar as tarefas de mãe com a especialização em neurologia era quase impossível. A maioria das médicas interrompia a carreira por algum tempo. Ela não teve essa opção; sua mãe nunca concordou com o seu casamento. Não ajudava. O marido cansou de leva...

O mistério do bairro judeu

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A chamada da Central ocorreu exatamente às 04:03 da madrugada do dia 06/02/2019. Uma casa havia sido invadida no bairro judeu e o bandido ainda se encontrava dentro da residência.              Chegamos ao local em quatro minutos.  Encontramos a vítima apavorada no meio da rua, em frente a sua casa, vestindo apenas uma camisola, uma touca e uma pantufa no pé esquerdo.                 Levamos a Sra. Simi Goldberg a um local seguro e, depois de acalmá-la, pedimos que ela nos relatasse o ocorrido. – Graças Deus vocês chegaram, meu filho. Tem um bandido dentro do meu banheiro. – A senhora chegou a vê-lo?   Está armado? Quantos são? –Não sei nada disso. Desde que o meu querido Absalão morreu, eu moro sozinha. Estou muito nervosa. Isso nunca aconteceu comigo. Acordei no meio da noite para ir ao banheiro. Na minha idade isso é muito comum. Você é um jovem bonito e forte. Ainda não sabe o que é i...

A janela

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O rapaz caminhava apressado em direção ao ponto de ônibus sob à chuva fina iluminada pelos faróis dos carros. O próximo ônibus para o Novo Gama passaria em quinze minutos. Precisava chegar em casa antes das dez; prometeu assistir à final do campeonato com o filho.          Após atravessar a avenida W3, porém, o jovem percebeu que havia deixado uma das luzes do escritório acesa. Subiu correndo pelas escadas do prédio, abriu o quadro de energia do andar e desligou a chave geral. Quando preparava a meia-volta, ouviu:         – Epa!!! Quem apagou a luz? Quem está aí? – O grito vinha da sala do diretor.         – Ah meu Deus! Desculpa senhor. Pensei que todos já tinham ido.         –Pensou? Pensou? Era a só o que me faltava. Por causa desse seu pensamento eu perdi todo o meu dia de trabalho. Qual o seu nome, menino?          – É João, senhor. Foi sem querer. É que sempre sou o últim...

Dona Otília

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  Garimpar a obra de Cora Coralina é uma das melhores coisas a se fazer nesta pandemia. No livro "Vintém de Cobre" encontrei um texto que se destaca um pouco da maioria, pela diferença no estilo e na leveza. Porém, antes de deixar as minhas impressões, gostaria de garantir que vocês fizessem a leitura sem qualquer interferência menor. Aqui vai:                               Dona Otília Ninguém sabia porquê. Ela tinha pegado nome de gente, acrescido mais de dona. Era Dona Otília. Até os trabalhadores que iam ao quarto dos arreios buscar qualquer pedaço de corda, velhas ferramentas, achavam graça nela. Sempre no seu canto, deitada ou especada, cochilando ou de olho redondo e vivo, acomodada no seu canto.  Aconteceu sim, que aconteciam dessas coisas lá na fazenda, vez por outra, uma galinha sadia e botadeira dava de ter suas dificuld...

A entrevista de Alice

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               – Desculpa. Qual é mesmo o seu nome?            – Alice.            – Não diga! Quantos anos você tem, Alice?            – Vinte três.            – Então vamos lá. O que você fez nesse último ano?              Não sei onde eu estava com a cabeça quando aceitei esse emprego. Só um maluco para sair pelo mundo a procura de "Alices verdadeiras". Fazia cinco anos que eu estava na empresa de um bilionário excêntrico que teimava em acreditar que o nosso planeta só poderia ser salvo por um exército de Alices do País das Maravilhas.           As últimas estimativas da firma indicavam que para cada cem milhões de meninas avaliadas, apenas uma preenchia os critérios de uma autêntica Alice. Seria mais fácil encontrar o próximo Dalai Lama.     ...

Brimos

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                                          Youssef e Abdala conviveram por toda a infância numa pequena cidade do interior do Brasil. Faziam parte de uma das inúmeras colônias sírio-libanesas que se espalharam pelas Américas no decorrer do século XX, fugindo de guerras e da intolerância religiosa.   Os meninos passavam a maior parte do tempo jogando futebol, tomando banho de rio e andando de bicicleta, debaixo do calor escaldante e acolhedor do nordeste brasileiro. Não tinham a menor noção da violência que seus patrícios ainda enfrentavam nas aldeias próximas a Damasco. Youssef, mais rápido e malicioso, sabia explorar bem a credulidade do inocente Abdala, cuja família havia chegado há poucos anos, quase meio século depois da vinda dos avós de Youssef.   Os Abdala ainda lutavam para se adaptar ao idioma e aos códigos do novo país. Essa dupla protagonizou uma séri...