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O milagre de domingo

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Cherri, o poodle médio e escuro que o menino ganhou da irmã mais velha, era o cão mais livre da capital federal, quiçá da América Latina. Dono do seu destino, quando queria passear, o bicho arranhava a porta da cozinha do apartamento e aguardava pacientemente que quem estivesse por perto a abrisse.           Ele descia as escadas do prédio, ganhava o pilotis e passeava sozinho pelos gramados da quadra, onde trabalhava para manter o seu território, suas amizades e sua liderança pacífica. Satisfeito, fazia o caminho inverso e arranhava novamente a porta, atrás de água, um pouco de comida, descanso e afeto. Uma vida completa.          Numa tarde nublada de domingo, porém, já escurecia, o programa dos Trapalhões chegava ao fim e Cherry não chegava. O menino de 9 anos colocou o seu bamba e foi atrás do seu cachorro de 5, sem avisar os pais. Os pingos de chuva não chegavam a molhar, mas incomodavam. O final do domingo não era agradável nem naq...

É Natal

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  Não, não seremos as crianças dessa noite, mas já fomos. Aliás, a essa altura poucos são os personagens que já não tenhamos sido. Falo do elenco daqueles filmes a que assistíamos nas ceias de Natal da nossa infância, entre delícias, presentes e sustos. Fomos o neto sonolento e o pai desajeitado, a namorada deslocada e a tia desquitada, o solitário viúvo e o tio que bebeu demais,  a filha sem o vestido ideal e a mãe exausta, o filho que sabia de tudo e o avô que não tinha certeza de mais nada . Nem genros, sogras, cunhadas e concunhados escapamos de ser. Alguns papéis eram inéditos e para interpretá-los tivemos que aprender novos repertórios de silêncios, sorrisos, medos, danças, saudades, coragens, músicas, perdões, amores e perdas. Nesse teatro da vida vimos as  palavras de Jesus saírem do livro e andarem por aí e dentro de nós. A hora é de honrar a memória ou a presença de quem nos trouxe para essa festa e de celebrar com os nossos convidados mais um renascimento...

Vertigem

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                                      Microcontos Vertigem Ventava muito, quando Dagoberto conseguiu se aproximar do parapeito do mirante da Torre de TV. O mundo girou, o estômago embrulhou e o homem recuou. Não foi medo de cair, foi medo de pular. Envelheçam! A única coisa que Abelardo admirava nos jovens era a capacidade de ter cabelos nos lugares certos. Epigenética Hoje acordei com o pigarro do meu pai e a tosse dos meus irmãos mais velhos. A saudade é tanta que chego a me arrepender de não ter fumado.  Refração Quando Afranio viu o mundo pelas lentes da dor conseguiu enxergar o belo com mais nitidez, como se as lágrimas fossem ótimos óculos.

Dicionário

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  Outono é a vida se fingindo de morta, é o mundo fazendo de conta que vai acabar. Vaidade é aquilo que te move, te aprisiona, te alegra e te cega no mesmo dia. Vida é um verbo que piora com predicados. Meia esquenta o pé e diminui o chulé é bola é touca é coador de café. Poemas são tristes porque vêm da alma. A alma é triste porque sabe mais do que a mente. Ovo é um alimento que já vem na panela. Pipoca é o milho que deu certo na vida. Natal é a noite mais arriscada do ano. Tarde de domingo é sinônimo de melancolia. Corpo é o relógio que, inutilmente, teima em nos dizer que vai parar um dia.

Simples

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mantenha o paladar calibrado para o louro do arroz  para o abraço da brisa morna para a visita a um ipê branco deixe o prazer nas prateleiras  mais baixas da estante

Mais cristã impossível

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  Não aguento mais o cheiro desse pronto-socorro. Suporto menos ainda  esse governo filho-da-puta que vive inventando leis para adiar a minha aposentadoria. Sei que os pacientes não merecem a minha revolta e o meu cansaço. Danem- se eles também! Nunca fui muito melhor que isso. A insegurança e a falta de experiência do início da carreira me davam medo, só isso. Precisei simular uma empatia que nunca tive para não perder o emprego no estágio probatório. Burra eu nunca fui.           Ser uma boa aluna e passar no vestibular de medicina, nada tem a ver com a indiferença que tenho pelo sofrimento dos outros. Em nenhum momento da minha formação me exigiram compaixão. Provavelmente pensaram que ela seria óbvia numa mulher médica, mas não é. A vulnerabilidade que a doença gera nas pessoas me causa nojo e os meus pacientes nunca puderam contar comigo para diminuir qualquer rastro dessa fragilidade infantil. Não alimento esperanças vazias e irreais. A ciên...

Formigas e escolhas

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  Vitória mal conseguia se lembrar do que aconteceu naquela tarde de domingo. Lentamente, algumas imagens foram se formando: a cartela vazia de comprimidos, o copo de leite e o pó branco macerado no fundo do pilão de ardósia que o professor de sociologia lhe deu no passeio que fizeram pela feirinha de artesanato do MASP, no dia mais feliz da sua vida.           Ela nunca imaginou que andaria de mãos dadas a um homem tão inteligente. Pena ele não ter conseguido abandonar a esposa e o filho recém-nascido. Outras duas alunas perderiam o semestre naquele ano, mas Vitória decidiu perder mais.          "Graças a Deus você acordou, minha filha", a voz longínqua de Dona Adélia se somava a orquestra dissonante dos alarmes da UTI do Hospital Nove de Julho, confirmando para jovem que ela havia falhado. O trauma do tubo ainda lhe queimava a garganta e hematomas tatuavam seus braços, enquanto a sonda de borracha era puxada de sua uretra por...