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Mostrando postagens com o rótulo Prosa poética

Dicionário

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  Outono é a vida se fingindo de morta, é o mundo fazendo de conta que vai acabar. Vaidade é aquilo que te move, te aprisiona, te alegra e te cega no mesmo dia. Vida é um verbo que piora com predicados. Meia esquenta o pé e diminui o chulé é bola é touca é coador de café. Poemas são tristes porque vêm da alma. A alma é triste porque sabe mais do que a mente. Ovo é um alimento que já vem na panela. Pipoca é o milho que deu certo na vida. Natal é a noite mais arriscada do ano. Tarde de domingo é sinônimo de melancolia. Corpo é o relógio que, inutilmente, teima em nos dizer que vai parar um dia.

Simples

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mantenha o paladar calibrado para o louro do arroz  para o abraço da brisa morna para a visita a um ipê branco deixe o prazer nas prateleiras  mais baixas da estante  

Barra

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Dois Brasis se encontraram  no quiosque da praia  por engano Esforço, estudo, precisão e o cuidado com a vida  deram de cara  com armas sem mira e  sem chance Os tiros saíram  pelos  dois lados do tambor matando doutores  e matadores A barbárie conseguiu  o que queria Para ela não houve engano

O maior mal

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o maior mal não é o cultivo do ódio não é a obsessão por controle não é silenciar   os   dissonantes não é a convicção inquestionável  não é a displicência com as contas   não é a luta para igualar diferentes não é aceitar mortes estratégicas não é a criação do anti-homem é corroer a fibra  dos jovens  e dos pobres  para reinar sobre  um castelo de areia  e ressentimento

Reminiscências

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Exausto do churrasco no condomínio afastado, o pai deu as chaves para o filho mais novo e se acomodou no banco de trás.  A vontade era de se deitar junto com o sol, mas a lei agora p roibia.       Afivelou o cinto e abriu a janela deixando o vento lhe massagear o rosto e os cabelos raros. Fechou os olhos quando avistou os arcos da nova ponte.  Luzes e sombras passavam por suas retinas, como não faziam há muito tempo.        Cada vez mais distantes, o spotify e a conversa indecifrável da esposa com o filho motorista embalaram o transe, abrindo um portal de reminiscências: outro carro, outras vozes longínquas vindas do banco da frente.  Tosse e rádio no fim da tarde de um domingo há cinco décadas dali.       Voltando da chácara, a Brasília bege pedia marcha na subida da Granja do Torto. Após a parada para o caldo de cana   no cone de papel do acostamento, um cigarro passou a perfumar o vento que entrava pela janela. ...

Mãos dadas

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Atrasado e engarrafado no calor das duas da tarde um homem sofria Vírus guerra e inflação escorriam pelo rádio do carro Foi o primeiro a chegar  no sinal vermelho  para assistir na tela do para-brisas  à senhorinha  de pernas tortas  cabelos b rancos  e  mãos dadas  ao garoto bem penteado   e à menininha  de vestido estampado O trio seguia obstinado para a sorveteria O sinal abriu  uma música tocou e o mundo foi salvo

O espetáculo

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  Cabem nos dedos de uma mão só as minhas vezes em um circo, mas uma  dimensão paralela ressurge toda vez  passo por baixo da lona.  É como se eu assistisse à continuação de um único show.        O ritual se repete com novidades que eu não deixo acontecer. Procuro sempre por roupas puídas, fios elétricos expostos, trombetas, microfonia e frágeis redes de proteção.        Quero ver a melancolia do palhaço, as cambalhotas de anões idosos pela serragem e o cheiro de óleo queimado girando no globo da morte. Quero ouvir o suspiro do trapezista ao encontrar os braços do filho que se lançou no ar.        Invejo a itinerância, a coragem de não ter endereço e a pintura tatuada na alma do artista.         O espetáculo também me assiste: vê a criança, o namorado e o pai que aprendi a ser, mas ele sabe quem  está por trás das máscaras.

Leviatan acorrentado

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o Estado inventou o doutor alérgico a consulta a professora fora de sala o policial de gabinete a juíza sem lei os funcionários que exploram o patrão

O chão de meu pai

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         – Zée! Corre, Zé! O galeguin do vizinho tá se afogando. Acode, homi! – O grito de Francisca subiu apavorado pela ladeira.        O marido jogou o prato de alumínio no chão do alpendre, cuspiu o naco de carne e desceu a ribanceira do açude, marcando o lugar onde o menino ia afundar pela última vez.       Bom nadador, ele partiu no rumo certo, mas o sol e o bucho cheios pesaram. Prendeu o fôlego e mergulhou; após a terceira mãozada vazia, retornou. Vomitou a outra metade do jabá, recalibrou o peito, sapateou no ar e foi mais fundo.        Desceu até os ouvidos zunirem, rodopiou pernas e braços abertos no breu até sentir os dedos se engancharem nos cachinhos. Levou o garoto para o barranco, soprou a boca e apertou as pás. O fogoió tossiu dois litros d’água e choramingou.       Zé não voltou para o roçado naquela tarde. Na semana seguinte, a congestão levou o meu avô, o juízo de minha a...

Poeta em prosa

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       Aqui vai um pequeno desafio. Tentem identificar o autor desta obra. “Meu avô ainda não estava morando na árvore. Se arrastava sobre um couro encruado no assoalho da sala. O vidro do olho de meu avô não virava mais e nem reverberava. Uma parte estava com oco e outra com arame. Quando arrancaram das mãos do Tenente Cunha e Cruz a bandeira do Brasil, com a retomada de Corumbá, na Guerra do Paraguai, meu avô escorregou pelo couro com a sua pouca força, pegou do Gramofone, que estava na sala, e o escondeu no porão da casa. Todos sabiam que o Gramofone estava escondido no porão da casa, desde o episódio. Durante anos e anos, poucos desceram mais àquele porão da casa, salvo uns morcegos frementes. Em 1913, uma árvore começou a crescer no porão, por baixo do Gramofone. (Os morcegos decerto levaram a semente.) Um guri viu o caso e não contou pra ninguém. Toda manhã ele ia regar aquele início de planta. O início estava crescen...

Laranjas

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          O matuto descasca laranjas no alpendre, zangado. Demora quinze minutos para esbrugar a primeira. Caprichou, não feriu a fruta uma única vez. Bebe tudo e mastiga o bagaço, orgulhoso.           O horizonte vive se tremendo no novembro do Piauí. A quentura é tanta que nem as árvores se mexem. Até a sombra se esconde depois do almoço.        Pega mais uma fruta na bacia de alumínio, repete o ritual com a mesma obsessão e morde mais forte para esganar a vergonha. No final da segunda banda, o fastio se inicia;  desiste do bagaço. Valente, esfola a terceira laranja sem errar, mas a cirurgia termina junto com a fome. Mesmo magoado, não aceita deixar a fruta e o trabalho se perderem.   – Tonha! Você quer laranja? Tá geladinha.   – Me larga de mão, Zé. Cê num vê que tô descansando? , gritou a voz da esposa dentro do quarto.              Desolado , sem...

Hiato

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          Chegou antes da hora. Algumas décadas se passaram desde que esteve naquele ateliê pela última vez. A recepcionista o deixou à vontade no salão principal, enquanto a professora terminava a última aula do dia. O encontro foi agendado por uma amiga, a única ainda capaz de convencê-lo a sair de casa.           Caminhou entre as estantes, observando as mesmas caixas de plástico, organizadas alfabeticamente por etiquetas: cartolinas, lápis coloridos, papel machê, origamis, pinceis, telas, tintas. Lembrou-se da linda escada de mármore. Reconheceu os quadros e os leques espanhóis. Sentiu-se observado pelas bonecas e máscaras vienenses. Estava mudado.           Portador de um talento inquestionável e inovador, conquistou sucesso e fama de forma muito rápida. Suas linhas e cores fluíam para as telas sem precisar de retoques. As obras nasciam prontas. Quebrou paradigmas sagrados e seculares. Era com...

Domingo

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  Abriu os olhos antes do despertador e se arrastou até o banheiro. Evitou o olhar do espelho, ganhou um pouco de vida após o banho. Começava a se vestir quando o sino da igreja denunciou o silêncio. Hoje não teria o trabalho para se entorpecer. Foi à janela. O sol se espreguiçava, dourando o azul sem nuvens; o mar trovejava. No canto da moldura um bando entra em cena. Voavam a trabalho, guiados por instintos ancestrais, sem domingo. Invejou-os. No centro da tela, o líder fez um mergulho decidido e pousou próximo a arrebentação. Meia dúzia de aves negras enormes de pescoços longos se enfileiraram. “Lugar estranho para pescar”, não entendeu. Duas ou três se arriscam na primeira onda; em poucos minutos o esquadrão inteiro está surfando. Não parecem principiantes, sabem usar a potência da água com a mesma elegância do voo. Alcançam a areia sem esforço e retornam. Durante o percurso, trocam olhares e grasnados eufóricos. Alegrou-se. Após meia-hora de ondas, nova ordem é dada. Aceleram...