O espetáculo

 


Cabem nos dedos de uma mão só as minhas vezes em um circo, mas uma dimensão paralela ressurge toda vez  passo por baixo da lona. É como se eu assistisse à continuação de um único show.
       O ritual se repete com novidades que eu não deixo acontecer. Procuro sempre por roupas puídas, fios elétricos expostos, trombetas, microfonia e frágeis redes de proteção.
       Quero ver a melancolia do palhaço, as cambalhotas de anões idosos pela serragem e o cheiro de óleo queimado girando no globo da morte. Quero ouvir o suspiro do trapezista ao encontrar os braços do filho que se lançou no ar.
       Invejo a itinerância, a coragem de não ter endereço e a pintura tatuada na alma do artista. 
       O espetáculo também me assiste: vê a criança, o namorado e o pai que aprendi a ser, mas ele sabe quem 
está por trás das máscaras.

Comentários

  1. Muito linda sua crônica.
    Esta visão realista me fez refletir. Eu nunca vi o que você vê, nas vezes em que fui ao circo. Só via o espetáculo! Mas, por trás, você expôs a verdade nua dos bastidores .Parabéns!
    Lúcia Bucar

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