O milagre de domingo
Cherri, o poodle médio e escuro que o menino ganhou da irmã mais velha, era o cão mais livre da capital federal, quiçá da América Latina. Dono do seu destino, quando queria passear, o bicho arranhava a porta da cozinha do apartamento e aguardava pacientemente que quem estivesse por perto a abrisse.
Ele descia as escadas do prédio, ganhava o pilotis e passeava sozinho pelos gramados da quadra, onde trabalhava para manter o seu território, suas amizades e sua liderança pacífica. Satisfeito, fazia o caminho inverso e arranhava novamente a porta, atrás de água, um pouco de comida, descanso e afeto. Uma vida completa.
Numa tarde nublada de domingo, porém, já escurecia, o programa dos Trapalhões chegava ao fim e Cherry não chegava. O menino de 9 anos colocou o seu bamba e foi atrás do seu cachorro de 5, sem avisar os pais. Os pingos de chuva não chegavam a molhar, mas incomodavam. O final do domingo não era agradável nem naquela época, na chuva então...
O moleque deu uma volta inteira pela quadra, caminhou entre os prédios, perguntou aos porteiros, vasculhou por dentro da Escola Classe, foi até o parquinho do jardim de infância e ao Clubinho dos escoteiros. Nada encontrou. Antes de retornar ao seu prédio passou pela comercial da quadra e perguntou na padaria; nada, ninguém havia visto o Cherri.
O pequeno se sentou no pelotis do bloco, recostando-se numa das pilastras brancas e ali ficou por alguns minutos, como quem calcula a última cartada. Por fim, decidido, ele se encaminhou até o centro do campinho de grama ao lado da banca de jornal, onde jogava futebol com os amigos todos os dias, menos nas tardes de domingo. Os pingos de chuva se misturavam às suas lágrimas.
Parou no local planejado e olhou para cima. Com a luminosidade do poste próximo, percebeu e se encantou com o brilho e a esfericidade perfeita das gotas de chuva que caiam sobre o seu rosto. Fez, então, o pedido mais sincero e puro da sua vida. Ao voltar os olhos para o gramado, o cão surgiu de repente, latindo e correndo disparado em sua direção, como se tivesse acabado de atravessar um portal, a pouco metros dali.
Quem poderia negar a um menino corajoso, que acabara de descobrir o risco e a perfeição do universo, o desejo de conviver mais algum tempo com o seu querido cãozinho? Naquele final de domingo chuvoso um raro ritual foi executado com todos detalhes necessários e, quando isso acontece, o pedido não pode deixar de ser atendido.
O garoto guardou o seu milagre em segredo como um talismã precioso, uma relíquia que pudesse usar todas as vezes que a vida resolvesse perder o sentido. E assim o faz, até hoje.
O moleque deu uma volta inteira pela quadra, caminhou entre os prédios, perguntou aos porteiros, vasculhou por dentro da Escola Classe, foi até o parquinho do jardim de infância e ao Clubinho dos escoteiros. Nada encontrou. Antes de retornar ao seu prédio passou pela comercial da quadra e perguntou na padaria; nada, ninguém havia visto o Cherri.
O pequeno se sentou no pelotis do bloco, recostando-se numa das pilastras brancas e ali ficou por alguns minutos, como quem calcula a última cartada. Por fim, decidido, ele se encaminhou até o centro do campinho de grama ao lado da banca de jornal, onde jogava futebol com os amigos todos os dias, menos nas tardes de domingo. Os pingos de chuva se misturavam às suas lágrimas.
Parou no local planejado e olhou para cima. Com a luminosidade do poste próximo, percebeu e se encantou com o brilho e a esfericidade perfeita das gotas de chuva que caiam sobre o seu rosto. Fez, então, o pedido mais sincero e puro da sua vida. Ao voltar os olhos para o gramado, o cão surgiu de repente, latindo e correndo disparado em sua direção, como se tivesse acabado de atravessar um portal, a pouco metros dali.
Quem poderia negar a um menino corajoso, que acabara de descobrir o risco e a perfeição do universo, o desejo de conviver mais algum tempo com o seu querido cãozinho? Naquele final de domingo chuvoso um raro ritual foi executado com todos detalhes necessários e, quando isso acontece, o pedido não pode deixar de ser atendido.
O garoto guardou o seu milagre em segredo como um talismã precioso, uma relíquia que pudesse usar todas as vezes que a vida resolvesse perder o sentido. E assim o faz, até hoje.
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