Cherri, o poodle médio e escuro que o menino ganhou da irmã mais velha, era o cão mais livre da capital federal, quiçá da América Latina. Dono do seu destino, quando queria passear, o bicho arranhava a porta da cozinha do apartamento e aguardava que alguém a abrisse. Ele descia pelas escadas do terceiro andar, ganhava o pilotis e passeava sozinho pelos gramados da quadra, onde fazia a ronda para manter seu território, suas amizades e sua liderança pacífica. Satisfeito, trilhava o caminho inverso, arranhando novamente a porta, atrás de água, um pouco de comida, descanso e afeto. Uma vida completa. Naquela tarde nublada de domingo, porém, já escurecia, o programa dos Trapalhões chegava ao fim e o Cherri não apareceu. O menino de nove anos colocou o bamba e foi atrás do seu cachorro de cinco, sem avisar aos pais. Os pingos de chuva não chegavam a molhar, mas incomodavam. O final do domingo não era agradável nem naquela ép...
O cuidado com a verdade e o gosto pela boa comunicação foram o princípio. Eu sentia prazer em transmitir mensagens claras e fieis à realidade; ser um mediador confiável com mínimo ruído e boa síntese. Para mim, o conteúdo era o principal e a mensagem teria que acrescentar conhecimento, ser útil. Armei a vela para pegar esse vento. Grande engano. Quando descobri que a essência está na forma, na fluidez e na beleza o meu pequeno barco foi arrastado para águas desconhecidas. As tintas e o olhar importam mais do que a paisagem. Sei agora que a minha interferência e a minha miopia são o mais interessante a contar. Os rastros são nossa assinatura, os sinais que estivemos aqui e a única maneira de ser autoral. Escrever me ensinou a ler. Experimentar a solidão da tela em branco me fez admirar Pessoas, Cecílias, Hildas e Quintanas, mas também despertou a minha inveja em prosa e verso. Milhares de frases, m...
tingidos nas mesmas cores emoldurados na mesma casa uma alma maior que o corpo um coração maior que o peito para Theo a vida não mostrou os dentes trabalhou casou e foi pai fosse outro escapava emp regos perdidos amores negados amigos assustados com a orelha decepada no autorretrato Vincent pede socorro pincéis tintas e cartas revelam cores novas girassóis criam o amarelo cama cachimbo e cadeiras inauguram a perspectiva mais o delírio avança mais o irmão acolhe o coração envolve a alma exposta a arte quer mais tempo cartas pinceis e tintas chuva e sanatórios explodem estrelas em noites azuis labaredas de ciprestes e corvos calados anunciam: a loucura vencerá a insanidade atira a bala que fere os dois corpos emoldurados lado a lado tarde demais dirá o futuro a obra já foi entregue alma e coração voam para colorir outro lugar a arte sempre vence
Moi, a poesia Simples é uma verdadeira obra de arte!
ResponderExcluirAmei o paladar apurado e os prazeres na parte baixa da estante👏👏👏