Marilyn



Pouca gente sabe, mas a atriz norte-americana Marilyn Monroe, símbolo universal de beleza e sensualidade, era uma leitora ávida: consumia de tudo, inclusive alta literatura (o que inclui Gustave Flaubert, Samuel Beckett, Joseph Conrad, Ernest Hemingway, Albert Camus e James Joyce). Sua biblioteca pessoal contava com mais de 400 títulos, de escritores clássicos a contemporâneos. E, como qualquer pessoa que convive com os livros, acabou por escrever seus versos, além de deixar diários e incontáveis cartas.
         Marilyn Monroe escrevia textos assemelhados a poemas ou a esboços de poemas em folhas de papel ou páginas de caderno. Ela só mostrou seus escritos a amigos muito próximos, especialmente a Norman Rosten, escritor nova-iorquino instalado no Brooklyn e amigo de Arthur Miller, que a havia encorajado muito após ter lido alguns trechos. 
        A carta a seguir poderia ter sido escrita por Norman.

Nova York, 04 de agosto de 1962

Marilyn querida,

         Por favor, abra logo essa carta. É urgente.
         Li o caderno e os poemas que você me enviou na última semana. Quem escreve assim, não pode parar. Você tem o instinto e o reflexo de uma grande poeta, mas a sua alma pede socorro. Ela quer seu coração inteiro, sem remédios, sem culpa, sem o medo de enlouquecer.
        Vamos tirá-la daí logo. Você tem razão, as internações não adiantarão. Sabemos do mal que os gritos lhe fizeram e fazem, mas só você pode sair do caminho que a vida trilhou para você. A destruição que lhe acompanha desde o nascimento não é você.

        Você é um brilhante lindamente lapidado que, por dentro, é também um diamante. Não tem como não ser. Não entregue a eles o seu corpo, entregue os seus versos a quem souber o valor que eles têm.
        Você não conseguirá esquecer o que fez nem o que fizeram com você, mas pode pintar o passado com a mesma cor que usou nos cabelos. Mude o nome dele também. É o que todos nós fazemos, de uma maneira ou de outra. Vida é o que vem pela frente.
        O que você precisa agora é de um lápis e algumas páginas em branco. Palavras novas irão surgir e elas lhe dirão para onde ir. Não tenha medo da solidão, a sua salvação está nela. Amplie-a, mergulhe em seu oceano e escreva. Você estará em ótima companhia. Seus escritores favoritos respiram nessas águas.
        Confie, minha amiga querida. Para uma pessoa como você, a poesia é a única forma de escapar com vida.
        Amanhã irei lhe visitar.


        Beijos,

                          Norman

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Parece gente

Ensina-me

Cinzas acesas