Hiato
Chegou antes da hora. Algumas décadas se passaram desde que esteve naquele ateliê pela última vez. A recepcionista o deixou à vontade no salão principal, enquanto a professora terminava a última aula do dia. O encontro foi agendado por uma amiga, a única ainda capaz de convencê-lo a sair de casa.
Caminhou entre as estantes, observando as mesmas caixas de plástico, organizadas alfabeticamente por etiquetas: cartolinas, lápis coloridos, papel machê, origamis, pinceis, telas, tintas. Lembrou-se da linda escada de mármore. Reconheceu os quadros e os leques espanhóis. Sentiu-se observado pelas bonecas e máscaras vienenses. Estava mudado.
Portador de um talento inquestionável e inovador, conquistou sucesso e fama de forma muito rápida. Suas linhas e cores fluíam para as telas sem precisar de retoques. As obras nasciam prontas. Quebrou paradigmas sagrados e seculares. Era como se o tempo estivesse a sua espera.
Produziu incansavelmente, viajou o mundo, expôs nas mais prestigiadas galerias. Dominou todas as técnicas e as transformou. Criou estilos e influenciou tendências por mais de uma década, em um autêntico estado de arte. Encarnou o espírito do seu tempo.
Sentou-se na cadeira mais próxima da varanda, de frente para o gramado, embaixo do grande vitral colorido. Algumas lembranças voltaram à consciência. Olhares brilhantes, sedução, conversas sem entrelinhas, sorrisos fáceis, inseguranças, vida pela frente. Teve dúvida se as memórias eram mesmo agradáveis. O paladar atual já amargava também o gosto do passado.
Ninguém entendeu quando os contratos foram rescindidos, as viagens canceladas e os cavaletes desmontados. O recolhimento foi respeitado sem ser compreendido. Nem a família nem os amigos mais próximos conseguiam alcançá-lo; semanas, meses, dois anos de completa infertilidade.
Era como se a mensagem tivesse sido dita e a missão chegado ao fim. Não se desesperou, fez pior: resignou-se ao que entendeu como um destino. Sua arte não amadureceria. Lentamente a falta de vontade espalhou-se para outros desejos. Perdeu o tônus do corpo e da alma. Emagreceu.
A professora entrou pelo ateliê em silêncio. Escondeu a preocupação sorrindo com os olhos, como sempre fez. Sentou-se ao lado. Ficaram olhando os últimos raios de sol tocarem o gramado, juntos. Nenhuma conversa. Um longo e incerto caminho lhes aguardava.
26/06/2019

Ahhh como eu queria travar desse jeito aí!
ResponderExcluirVocê é a maior artista que passou por esse blog.
ExcluirSó uma palavra! Parabéns!
ResponderExcluirObrigado, minha amiga. Estamos no mesmo barco.
ExcluirSempre há algo a ser dito.Continue a nos dizer com sua ímpar sensibilidade.
ResponderExcluirSó posso dizer que amei, como amei.
ResponderExcluirTão a cara de ontem,quase 3 anos após. Adorei!
ResponderExcluir